Atuação do bacharel de direito se expande

Fonte: O Estado de S. Paulo, 02/09/2014
Ir além da sabedoria jurídica é o desafio atual dos profissionais da área do Direito que querem se integrar ao mercado, em escritórios e grandes organizações. Nesse novo contexto, o conhecimento pleno da língua inglesa e a boa integração aos negócios diferenciam os graduados, segundo recrutadores.

“O profissional tem de ser alguém que viabiliza os negócios nas organizações, levando em conta a legislação brasileira”, resume Henrique Bessa, diretor da recrutadora Michael Page. A área jurídica, segundo ele, vem ganhando maior importância nas companhias, aproximando advogados dos tomadores de decisão das empresas.

“Em uma organização multinacional, o profissional tem de explicar panos executivos do exterior como funcionam nossos sistemas trabalhista, fiscal, tributário, que, muitas vezes, parecem sem sentido para eles. E precisa mostrar porque uma decisão pode ser muito mais benéfica do que outra”, diz.

O conhecimento de idiomas, especialmente nesses casos, passou a ser essencial, segundo ele, tanto para garantir a eficácia dos aconselhamentos quanto para preservar a imagem dos trabalhadores. “A pessoa quegagueja no inglês pode até ter seu conhecimento técnico colocado sob desconfiança”, diz.

O gerente executivo da recrutadora Talenses, Paulo Moraes, também destaca a importância de conhecimentos interdisciplinares para os bacharéis. De acordo com ele, graduados com conhecimentos financeiros e contábeis, por exemplo, podem ter vantagem sobre os potenciais concorrentes no mercado de trabalho. “0 advogado, hoje, tem de saber fazer contas, conhecer como é o mercado da empresa na qual ele atua. Essa visão empresarial é o que mais falta aos formados”, diz.

Moraes afirma que a capacidade de oferecer soluções é um fator relevante não só nas áreas internas das companhias, mas também nos escritórios. As trajetórias dos profissionais nesses dois universos empregadores variam um pouco, no entanto: “Nas empresas, eles devem ser mais generalistas, em geral têm mais estabilidade, mas crescem na hierarquia mais vagarosamente. Nos escritórios, eles têm de ser muito especializados, têm menos benefícios, mas podem crescer rapidamente. ”

Alguns programas de pós-graduação podem dar aos profissionais maior conhecimento a respeito das dinâmicas práticas de organizações e escritórios, especialmente para recém-formados. Graduada em 2010, a advogada Vivian Christina Micali, de 28 anos, passou a frequentar um curso lato sensu em Direito Empresarial no Insper no início deste ano, convencida de que os conhecimentos técnicos que obteve na faculdade não eram suficientes para as demandas atuais do mercado.

Nas aulas, a jovem recebe noções de liderança, gestão e planejamento, além de conteúdos próprios do meio jurídico como tributação e contratos. A intenção do programa, de acordo com a coordenação da área no Insper, é oferecer aos jovens uma experiência semelhante aos programas de trainee.

“O departamento jurídico é tido como aquele que breca operações da empresa. Por excesso de cautela em contratos, por exemplo, acaba prejudicando o negócio”, afirma. Para Micali, o conhecimento obtido em disciplinas de finanças, contabilidade e administração ajudam a dosar os requisitos jurídicos com os objetivos dos negócios.

Áreas.

Algumas vertentes do Direito oferecem oportunidades para os trabalhadores da área. O coordenador de pós-graduação do Insper Direito, André Camargo,vê boas perspectivas para profissionais com conhecimentos em direito societário, pouco abordado nos cursos universitários, segundo ele. “O Direito Societário está na base da organização e em todos os setores da economia”, diz.

No escritório Rayes & Fagundes Advogados Associados, com atuação em diversos segmentos, área societária e de contratos é uma das maiores em termos de pessoal, juntamente com as áreas de Direito Tributário e Contencioso Cível. “E a área trabalhista está crescendo”, diz o advogado do escritório Leonardo Neri – opinião também compartilhada por empresas recrutadoras.

As atividades de conciliação, por outro lado, também têm ganhado espaço. O Leite, Tosto e Barros Advogados criou no ano passado tuna área voltada à arbitragem. “As empresas têm buscado, como solução para seus conflitos,a arbitragem pela celeridade e segurança jurídica”, diz Marcus Vinicius Mingrone, sócio do escritório. Nesse sentido, outra medida que deve ganhar evidência é a mediação, na opinião do vice-diretor da faculdade de Direito na Faap, José Roberto Amorim.

No futuro, algumas áreas tendem a se fortalecer. Para especialistas, os profissionais focados em contratos e parcerias envolvendo infraestrutura podem se beneficiar das concessões e parcerias público-privadas. O aumento da preocupação com sustentabilidade será também um impulso ao Direito Ambiental, e o novo marco regulatória para a Internet pode abrir horizontes para os advogados dedicados ao tema.

Desde 2011, a chamada Lei da TV Paga (12.485)2011) vem desenvolvendo a área do Direito Autoral e entretenimento, na opinião da advogada especializada Andréa Francez, do escritório Francezec Alonso Advogados. Ela conhece pelo menos dez escritórios que também atuam no segmento, espalhados por várias partes do Brasil.

CARACTERÍSTICAS

Qualificação

A boa formação universitária costuma ser um fator especialmente valorizado por companhias no momento de contratar profissionais da área jurídica

Habilidade gerencial

Cada vez mais os advogados precisam se apresentar como consultores capazes de apoiar as decisões dos executivos. Por isso, o bom conhecimento dos negócios passou a ser um ponto central para esses trabalhadores

Inglês

A proficiência na língua inglesa tem papel central nesse novo contexto profissional

Para professores, aluno deve ter perfil humanista

Interesse por assuntos diversos e gosto pela Leitura são requisitos para alunos dos cursos de graduação

A receita para a formação de um bom profissional em direito é simples: o gosto pela leitura e o interesse abrangente pelos mais variados assuntos são requisitos fundamentais para estudantes da área. Quem afirma são professores das principais universidades paulistas.

“O aluno precisa terum perfil humanista, muito aberto ao entendimento da sociedade em que vive. Como o direito é a disciplina da convivência humana, ele deve estar disposto a ler bastante e acompanhar as informações “, avalia o professor da Faculdade de Direito da USP Otavio Pinto e Silva, presidente da comissão de graduação.

Ele acrescenta que a leitura anda de mão s dadas com a escrita. Por meio da primeira, o aluno forma opinião a respeito dos temas do cotidiano e, pela segunda, demonstra o resultado daquilo que aprendeu. Já o professor de direito constitucional da PUC-SP Marcelo Figueiredo destaca que os interessados no curso devem ter vocação universalista,pelas características próprias da atividade. “Direito é uma ciência aberta, que permite ir para vários campos – tributário, civil, empresarial, ambiental”, enumera Figueiredo.

A flexibilidade exigida do bacharel está presente não apenas durante a graduação. Mesmo na especialização, que tem o objetivo de aprofundar um tema, essa capacidade deve ser trabalhada, segundo o coordenador da pós em direito da Faculdade Getúlio Vargas (FGV-SP), Emerson Ribeiro Fabiani.

“É muito importante que, para conseguir arquitetar novas soluções jurídicas, a pessoa conheça outros ofícios e seja capaz de dialogar com profissionais diversos. Assim, é possível transformar o ambiente onde atua.”

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